segunda-feira, 1 de setembro de 2008

"Em Busca do Tempo Perdido" - O filme mais longo de sempre

Estava eu a passear plo que dizem ser a auto-estrada da informação quando me deparei com a seguinte notícia:

[O FILME MAIS LONGO DE SEMPRE TERÁ 170 HORAS, TRÊS MIL ACTORES E PROUST ]

Francesa quer filmar a leitura integral de 'Em Busca do Tempo Perdido'.

O filme mais longo de todos os tempos está neste momento em rodagem e quando estiver concluído deverá ter cerca de 170 horas de imagens recolhidas em dezenas de países diferentes e uma ficha técnica com três mil actores. O casting ainda está em curso e quem quiser integrar o elenco tem apenas de cumprir dois requisitos: ter domínio suficiente da língua francesa para ler uma página de texto em voz alta; ter banda larga suficiente na ligação à Internet para suportar uma webcam. O guião são as três mil páginas dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.

A história é a seguinte: a realizadora francesa Véronique Aubouy decidiu criar uma longa e ininterrupta filmagem online em que cerca de três mil pessoas lêem na íntegra, palavra a palavra, o clássico proustiano. O plano da cineasta prevê uma página para cada voluntário (depende das edições, mas três mil são sempre garantidas) que será declamada diante de uma câmara, transmitida em tempo real e gravada.

O projecto começou em 1993, quando a cineasta francesa rodou na Eslovénia a leitura de Do Lado de Swan, o primeiro dos sete volumes, que consumiu 20 horas de filmagens de leitura feita por gente desconhecida. Desde então, o filme avançou lentamente. Nas mais de 131 mil horas que o mundo gastou desde então (o equivalente a 15 anos, mais coisa menos coisa), Véronique Aubouy apenas conseguiu registar 77 de Proust lido, consumindo os três primeiros volumes da obra, que em Junho deste ano apresentou em França. Mas enquanto o tempo passa a tecnologia avança e a francesa acredita agora que, graças à democratização da banda larga, conseguirá concluir o projecto de soletrar os restantes quatro volumes do épico da literatura francesa. O início das filmagens está marcado para dia 27 deste mês, às 12.00 (hora portuguesa).

Ontem ao início da tarde havia já 778 voluntários inscritos no site do projecto (http/www.lebaiserdelamatrice.fr). A grande maioria são franceses (567), mas também por lá se encontram senegaleses e egípcios, tailandeses e vietnamitas, japoneses e brasileiros e, claro, dois portugueses. Na sua maioria são simples curiosos, mas muitos são estudiosos de literatura francesa e da obra de Proust. Todos se propõem aderir ao projecto de Aubouy, cada um sugerindo um cenário de enquadramento para a declamação da página que lhe couber em sorte.

"Espero que estas três mil pessoas sejam gente de todo o mundo, de todos os países, gente de todas as idades, gente do dia, gente da noite. Quero fazer um retrato do mundo e cada pedaço desse retrato será um retrato feito por cada um de vós", explica Véronique Aubouy num pequeno vídeo - feito também ele com uma webcam - no seu site. Tudo somado, estima a cineasta, este imenso voluntariado de leitura resultará em cerca de 170 horas de filme. Uma longuíssima metragem que, além de promover a obra de Marcel Proust e lançar uma ideia de criação artística a uma escala global e sem fronteiras, lança inevitavelmente uma reflexão sobre a passagem do tempo. Nada mais proustiano.

Texto: João Pedro Oliveira
in Diário de Notícias | 01 de Setembro de 2008

Pois bem, pelo que percebi, vão recitar a obra de Marcel Proust palavra a palavra. Ficaremos assim com uma longa metragem de 170 horas, que, segundo os meus cálculos, poderemos sentarmo-nos confortavelmente na poltrona de massagens do nosso lar (ou de pernas cruzadas no chão fazendo exercícios de concentração se preferirem) com uma hiper-mega-super-ri-fixe dosagem de pipocas, ficando imóvel por exactamente 7 dias e 2 horas.

Sei que certamente haveria potênciais espectadores, embora poucos. E acredito que pouco tempo depois da estreia, ainda se reclame o record do guinness do tempo que se consegue aguentar a ver a produção por mais tempo seguido. Mas também sei certamente que esses gajos são forçosamente alguma variante do sado-masuquismo.

Com tudo isto, acho que o nosso amigo Marcel Proust é quem ganha mais porque vê a sua reflexão sobre o tempo mais difundida ainda...

Será que o autor da obra só atribuiu o título ao livro no final do o ter escrito? É que é totalmente compreensivel... Depois de todo o tempo gasto para escrever as 3 mil páginas, num acto de revolta e desesperado, atribuísse um titulo referente à sua actividade futura..... É bem feita, serviu-lhe de lição.

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